Olá! Como escrevi no post anterior, existem diferenças entre o Raku praticado no Japão e no Ocidente. Vou neste post falar mais sobre a minha experiência com o Raku aqui no Brasil.

Raku: o evento

O Raku que fiz foi no estúdio do ceramista Newton de Mello, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. É um evento muito divertido, tem comidas, bebidas e as peças ficam prontas no mesmo dia.

Começamos aplicando máscaras (com fita, parafina ou látex) sobre a peça biscoitada. Funciona assim: ao aplicar o esmalte, a parte que foi coberta por máscara não receberá o esmalte, ficando escura. Depois explico melhor o processo químico.

Aplicamos o esmalte e removemos a máscara. No caso da parafina, não precisa remover, ela derreterá na queima. No exemplo abaixo, a parte que recebeu aplicação da parafina é a do desenho em forma de redemoinho. Ela ficará escura depois da queima.

IMG_0034
peça com o esmalte e com a máscara de parafina

A queima

Depois, colocamos as peças no forno. O forno é à gás e, como podem ver, é bem simples. Nele, são atingidas temperaturas relativamente baixas (até 900º C).

O Raku é uma  técnica de baixa queima. Inicialmente, é realizada a queima por oxidação mas depois a peça é colocada em uma câmara de redução. Mas o que vem a ser queima por oxidação e redução?

IMG_0031
forno de raku

A queima por oxidação é quando no interior do forno há moléculas de oxigênio em abundância, permitindo que os processos químicos ocorram sem haver escassez desse elemento.

A queima por redução é quando a atmosfera do forno, que é repleta de material combustível, é aquecida. “Redução é combustão incompleta de combustível, causada por escassez de oxigênio, produzindo monóxido de carbono”(Arbuckle, 4). Eventualmente, todo o oxigênio disponível é usado. Isto, faz com que o oxigênio seja retirado do esmalte e da argila para permitir que a reação continue. O oxigênio serve como um reagente limitante neste cenário porque a reação que cria o fogo precisa de um fornecimento constante dele para que continue. Quando o esmalte e a argila ficam escurecidos, isto significa que o oxigênio foi retirados deles para compensar a falta de oxigênio na atmosfera. O espaço vazio que ocorre na redução pelo oxigênio é preenchido pelas moléculas de carbono presentes na atmosfera do recipiente, o que faz com que a peça fique mais escura nos pontos onde mais oxigênio foi retirado.

Nesse caso, o forno à gás funciona como um forno de oxidação. Quando a temperatura no interior do forno atinge aproximadamente 900º C, a tampa do forno é removida e a peça, ainda incandescente, é transferida para uma câmara e coberta de serragem. Em seguida a câmara é fechada. Lá ocorre a queima por redução.

A peça é deixada na câmara de redução por alguns minutos e depois mergulhada em água fria, interrompendo o processo da queima e criando o craquelamento, característico nesse processo.

O raku é uma forma única na produção de cerâmicas. O que o torna único é a margem de concepções que podem ser criadas simplesmente alterando certas variáveis. Estas variáveis – que incluem a máscara de cera, esmaltes, temperatura e tempo – determinam, em última análise, o resultado quando é queimada uma peça de argila. As peças ainda incandescentes são retiradas do forno e submetidas a choques térmicos extremos na água fria. Nessa luta entre os elementos, ocorre a magia do raku: resultados inesperados fazem com que nenhuma peça seja igual à outra. É a materialização do pensamento zen budista: acontecimentos na nossa vida são únicos e transitórios.

Anúncios