Cerâmica Shino

A cerâmica Shino foi o produto dos fornos das cerâmicas Mino, na cidade de Toki, província de Gifu, no Japão. Suas peças eram famosas por seu esmalte espesso, “branco como a neve” com marcas de “labaredas” escarlates que perecem estar bem abaixo da camada do esmalte. Shino também é um tipo de esmalte, nascido no forno das cerâmicas de mesmo nome, originado na era Momoyama (1573-1615). Naquela época, por causa das cerâmicas brancas serem consideradas valiosas, Shino foi o esmalte criado saciar esse desejo. Ele fascinou gerações de japoneses e inspirou o escritor Yasunari Kawabata a escrever o seu livro “Mil Tsurus”. As formas típicas para o Shino são tigelas de chá, pratos de pequeno e médio tamanhos para o uso na cerimônia do chá. 

O grande ceramista japonês Toyozō Arakawa, responsável pela redescoberta das técnicas características da cerâmica Shino no século XX, disse o seguinte:

Dentre todas as coisas que existem, Shino é o gosto japonês mais profundo”

Hoje em dia, diversos ceramistas ocidentais renomados aplicam o esmalte Shino em suas peças, sendo muito apreciado dentro e fora do Japão.

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Cerâmica Shino com decoração em tetsu-e

Esmalte Shino

Genericamente, tem como o único ingrediente o feldspato embora alguns autores afirmam que, originalmente, era uma mistura de feldspato e cinzas. Esse esmalte é, na maioria dos casos, aplicado com uma camada grossa. 

zoom do esmalte Shino. fonte: touroji.com
zoom do esmalte Shino. fonte: touroji.com

A aplicação espessa do esmalte tem como efeito o aumento da brancura da peça e também a facilidade de ocorrência de furos no esmalte (pinholes), dois aspectos desejáveis nesse caso. Por outro lado, essa aplicação espessa pode criar resultados indesejáveis como o não derretimento completo do esmalte, derretimento excessivo e escorrimento ou então a não aparição das manchas escarlates. Na verdade, a proporção de peças de Shino que saem do forno com resultado satisfatório não é muito alta.

  • Um exemplo de composição do esmalte Shino: Feldspato de Hiratsu 100%

O feldspato de Hiratsu tem sua composição química muito característica e se assemelha muito com o mineral sienito nefelínico.

Uma peculiaridade do esmalte Shino é que aparecem aleatoriamente na superfície branca da peça, furos da cor escarlate (pinholes). Esse contraste entre a superfície branca do esmalte e os pinholes são muito apreciados pelos conhecedores e pode-se dizer que cada peça de Shino possui sua própria individualidade. 

Além disso, são comuns os casos onde são aplicados na peça a decoração adicional de tetsu-e (pintura com óxidos de ferro), sendo amplo o espectro decorativo para o Shino.

A argila

Para que a brancura do Shino possa ser realçada, é preciso escolher a argila. O  uso da porcelana branca não é recomendado, pois não existirão grandes mudanças na tonalidade do branco entre o esmalte e a argila. Por outro lado, as argilas com alto teor de ferro exercem um efeito negativo na brancura do esmalte Shino. Para evitar a coloração por partículas de ferro, é desejável o uso de argilas com baixo teor de ferro. Por exemplo, no caso da argila comumente utilizada para esse caso, conhecida como Mogusatsuchi – ela é conhecida pela facilidade em aparecer pontos escarlates e tem baixa retração pós queima. Seu teor de ferro também é baixo (por volta de 1,5%), tendo assim uma boa compatibilidade com o esmalte Shino. Ao observar a argila, ela possui uma textura leve e suas minúsculas partículas de ferro fazem brotar o escarlate.

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Figura: aparência da argila Mogusatsuchi após a queima – superior esquerdo – oxidação sem esmalte; superior direito – oxidação com esmalte; inferior esquerdo – redução sem esmalte; inferior direito – redução com esmalte. Fonte: Tougeishop.com

Condições da queima final

Em seguida, vamos falar sobre o método de queima final. Geralmente, o que se sabe sobre o método de queima final é que “depois de aumentar a temperatura vagarosamente, na mesma duração de tempo, diminui-se vagarosamente a temperatura”.

No forno à lenha, que tem como programação a queima durante vários dias, 2 à 3 dias são gastos para subir a temperatura à 1.200º C. Ao passar por 900º C,  a peça “respira” gás na atmosfera de redução e a temperatura vai sendo aumentada. 

Então, da temperatura mais alta até o estabelecimento do escarlate, aos 900º C, gasta-se um dia inteiro e a temperatura vai abaixando lentamente e o mesmo número de dias gastos para o aumento da temperatura são gastos para o resfriamento vagaroso.

O escarlate acumulado na superfície da peça é devido à pigmentação do dióxido de ferro (minério de ferro vermelho) mas, se resfriado rapidamente, o dióxido de ferro não consegue alcançar à superfície. Além disso, sabe-se que na hora do resfriamento vagaroso, se não houver uma atmosfera de redução, o escarlate não surge.

Estas são as condições essenciais para a ocorrência do escarlate:

  • Teor de partículas minúsculas de ferro: 1 à 1,5%
  • Aumento gradual da temperatura: ritmo de 15 à 17º C por hora
  • Resfriamento gradual: até 900º C, ritmo de 10 à 12º C por hora
  • Condição da atmosfera do forno durante o resfriamento gradual: ambiente de redução

Historicamente, os fornos em Shino eram semi-subterrâneos, úmidos e ineficientes. Parece que o fato de não haver uma queima completa na câmara de queima propiciava peças com resultados mais interessantes.

Percebemos que o esmalte Shino é um esmalte de composição simples mas apresenta desafios para o ceramista que quiser obter bons resultados. O surgimento da sua característica cor escarlate, por exemplo, requer o cumprimento de certos requisitos. Não é só um simples esmalte, a dificuldade do Shino é conhecida no ajuste das complexas condições, como em sua queima final.

Fontes:

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