Olá! No final de junho eu tive a oportunidade de visitar o ateliê Suenaga e Jardineiro, próximo à cidade de Cunha, SP. A cidade virou um pólo de cerâmica artesanal e artística e vários artistas escolheram lá para montar seus estúdios.

O ateliê é administrado pelo casal de ceramistas Kimiko Suenaga, japonesa de Tóquio, e o brasileiro Gilberto Jardineiro. Eles criaram um sistema de produção de cerâmicas quase auto-suficiente. A argila é retirada de jazidas locais, os esmaltes (alguns feitos de cinzas de casca de arroz e de eucalipto) são preparados lá e a queima é feita em um forno de estilo japonês, chamado de noborigama.

Forno Noborigama

Nobori vem do verbo noboru, que quer dizer escalar e kama é forno em japonês. É um forno escalonado, com várias câmaras de combustão dispostas em degraus. Esses fornos foram introduzidos no Japão em meados do séc. XVI pelos ceramistas coreanos radicados no Japão e representaram um avanço significativo aos fornos mais primitivos do tipo anagama, presentes anteriormente no arquipélago japonês. Até hoje, esses fornos mais primitivos ainda coexistem com os fornos mais modernos mas o noborigama é o forno tradicional japonês de alta queima à lenha que apresenta mais controle sobre a temperatura além de apresentar mais eficiência na queima.

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Forno Noborigama – Ateliê de Suegana e Jardineiro, Cunha – SP

Na foto acima tirada no local vemos a fornalha principal, localizada na parte mais baixa do forno, as quatro câmaras de queima, onde ficam as peças de cerâmica e, por fim, a chaminé, na parte superior. Um dos motivos da eficiência deste forno é que ele é inclinado. O ar aquecido sobe e a inclinação do forno facilita o fluxo constante de ar que alimenta a combustão, aquecendo as câmaras. Sabemos que quanto maior o fluxo de ar, mais potente é a queima e podemos imaginar que esses fornos são como uma grande chaminé. Mas o grande diferencial desse tipo de forno são suas câmaras. Nelas, as chamas são forçadas primeiramente para cima depois percorrem as prateleiras onde estão as peças e a saem na parte lateral inferior para a próxima câmara. Isso faz com que a temperatura na câmara como um todo seja mais uniforme.

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Dinâmica das chamas dentro das câmaras em um forno noborigama

Dia da Queima

Os fornos à lenha tem um tempo de queima mais longo que os fornos elétricos ou à gás. Para o forno noborigama do ateliê Suenaga e Jardineiro, são necessárias 25 horas para que todas as câmaras atinjam a temperatura desejada.

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tradição japonesa de ofertar aos deuses saquê antes de realizar a queima

Eu cheguei às 9:00 hs de uma linda manhã de inverno no ateliê para acompanhar a queima no forno noborigama. Os funcionários já tinham começado a queima no dia anterior mas colocando lenha somente na fornalha principal (localizada na parte mais baixa do forno). Essa queima inicial serve para o aquecimento lento das câmaras. Isso porque se o aquecimento inicial for muito rápido, corre-se o risco das peças explodirem.

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Fornalha do forno noborigama

Às 8:00 hs do dia seguinte, começaram a colocar lenha na 1ª câmara. Como podem ver na foto abaixo, a lenha é colocada dentro da câmara, ao lado das peças. Para jogar a madeira, deve-se tomar cuidado para que ela não esbarre nas peças empilhadas ao lado. Também, para que haja distribuição uniforme do calor no sentido da largura do forno, tocos longos e curtos são escolhidos e cabe à habilidade e experiência do funcionário quando e como jogá-los no interior câmara. A meta nesta etapa é uma queima com duração de 1 à 1:30 hs, com a “derrubada” do cone pirométrico nº 15. Os cones pirométricos são peças feitas para medir a função tempo x temperatura. Quando esses cones envergam e caem eles sinalizam ao ceramista que a peça no interior do forno já atingiu a condição necessária para que ela seja considerada queimada. Nesse caso, depois que o cone 15 é derrubado em uma câmara, passa-se a queima para a câmara seguinte até que todas elas tenham completado a queima. O resfriamento deve ser longo para evitar que as peças sofram grandes choques térmicos. A queima, sendo assim finalizada na tarde da terça-feira, só terão as câmaras abertas na manhã do sábado próximo.

A abertura das câmaras é um acontecimento à parte. O público é convidado e muitos adquirem as peças recém queimadas. Ocorrem também palestras sobre o processo de queima e manufatura das peças.

Aprendi muito nesta visita e gostaria de agradecer ao senhor Gilberto e a senhora Kimiko pela generosidade e a calorosa acolhida! Espero que vocês também tenham gostado ;-)! Até a próxima!

Fontes:

  • 日本美術図解事典. 東京美術.
  • Wilson, Richard. Inside Japanese Ceramics. Ed. Weatherhill
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